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14/11/2017| Dia do Cuidador: “Não saber o que fazer aos seres humanos não faz sentido”

Nesta entrevista, a médica destaca o papel preponderante dos cuidadores, num contexto de envelhecimento da população e alerta para a necessidade de criar um estatuto que proteja e garanta a dignidade de quem cuida e quem é cuidado.
News Farma (NF) | Enquanto vice-presidente da Sociedade Portuguesa de Geriatria e Gerontologia (SPGG), que retrato traça da rede de cuidados continuados enquanto resposta à população portuguesa?
Dr.ª Maria João Quintela (MJQ) | A rede nacional de cuidados continuados integrados é uma resposta fundamental numa sociedade em que a população vive cada vez mais tempo. A longevidade é resultado do sucesso das políticas de Saúde, das políticas sociais, bem como da inovação e do crescimento social.
Esta rede é muito importante para vários níveis de dependência, subjacentes a diversos níveis de necessidade de cuidados. Naturalmente que cada vez mais nos deparamos com a necessidade de aprofundar os cuidados de proximidade na comunidade e de apoio domiciliário, na medida em que, associada ao aumento da esperança média de vida surge cada vez mais, o desejo do indivíduo se manter em casa própria. Assim, torna-se preponderante encontrar novas soluções de apoio domiciliário, até porque é uma resposta que não exige um investimento de um espaço e não retira a pessoa do seu ambiente familiar.
Penso que esta resposta está cada vez mais a ser pensada e ampliada para ir ao encontro das necessidades e vontades da população e, maioritariamente, das pessoas que continuam a querer estar no seu espaço o maior tempo possível. Também por este motivo verifica-se que a média de idades das pessoas institucionalizadas está aumentar progressivamente, e consequentemente o seu nível de dependência também é maior.
NF |De que forma é que Portugal olha para os cuidadores do ponto de vista da lei? Existe algum tipo de estatuto que proteja estas pessoas?
MJQ | O estatuto do cuidador é uma questão discutida há muito tempo e que implica uma reflexão cuidada no sentido de não criar estereótipos sobre quem é cuidado e quem cuida.
Em primeiro lugar, é preciso ter em conta a variedade de pessoas que prestam cuidados na comunidade - desde vizinhos, familiares, voluntários, amigos ou filhos. Importa também consciencializarmos estas pessoas para a necessidade de terem formação e informação nesta área e, neste ponto, falamos de questões sobre o próprio cuidar e de outros assuntos também complexos como os deveres e direitos de cada um, a proteção das pessoas com maior dependência no que diz respeito, aos abusos, ao mau trato, à prevenção da negligência e a valorização do bom trato, um assunto explorado por vários investigadores como o Prof. Doutor Ferreira Alves, da Universidade do Minho.
A verdade é que há a necessidade de aferir quantas pessoas prestam de facto cuidados, em que circunstâncias e em que perfis profissionais ou de família. É importante identificar se os cuidadores na sociedade portuguesa, que sabemos serem maioritariamente mulheres, trabalham, que idades têm, se estão sozinhas ou em casal e se tem ajudas de filhos ou não. No contexto de uma sociedade que apresenta novos fenómenos migratórios, importa detetar se os cuidadores têm ajuda direta ou indireta dos familiares, e, por outro lado, também é importante pensar como é que vai envelhecer quem emigra e quem cá fica.
É necessário refletir sobre a forma como asseguramos os direitos e deveres de quem é cuidado e de quem presta cuidados sem transformar a questão numa situação que obscureça a dádiva generosa das pessoas. Por natureza, se pudesse, o ser-humano cuidaria dos pais, tal como cuida dos filhos. Neste contexto temos que perceber de que forma que a sociedade atual hoje tem ou não tempo para se dedicar aos filhos, para que um dia mais tarde estes percebam que é importante também cuidar dos pais. Que tempo temos nós hoje para dar aos nossos filhos? Que tempo é que hoje a sociedade organiza para reconhecer que as crianças são um valor e não um custo apenas? Que não são apenas seres que precisamos de cuidar de manhã para pôr na escola, depois para ir buscar e pôr a dormir, mas também termos os nossos progressos profissionais? Que espécie de sociedade nós hoje estamos a acautelar das crianças hoje, que serão os mais velhos de amanhã?
NF |Na sua opinião, a sociedade atribui algum tipo de missão aos cuidadores?
MJQ | Sabemos que do ponto de vista ético e legal o abandono de pessoas que necessitam de cuidados ou de qualquer pessoa fragilizada é negligência e mau trato, independentemente da lei. Adicionalmente, a constituição reconhece o direito às pessoas mais velhas de serem cuidadas e de serem respeitadas, independentemente da sua condição atual.
Numa sociedade que vive cada vez mais, a longevidade não deve ser encarada como “uma maçada”, mas, pelo contrário, como um bem e uma conquista que envolve fatores como a melhoria dos cuidados de Saúde, a melhoria dos cuidados sociais, a melhoria do conhecimento e ainda a melhoria do acesso ao trabalho e ao estudo.
É essencial promovermos a consciencialização coletiva de que esta conquista pertence às sociedades evoluídas, cada vez mais ligadas à ciência, tornando-se essencial, encontrar formas humanizadas de respeitar as pessoas até ao fim. Caso contrário, acontece aquilo a que assistimos com frequência - o mau trato e o abandono, o desvirtuamento de deveres como o respeito pelos bens e pelas próprias pessoas e deixar as pessoas entregues à sua sorte.
É fundamental ter em conta que o que acabei de referir não é uma característica do ser humano enquanto pessoa que se valoriza através do conhecimento, que vai para as universidades, que quer cada vez mais atingir padrões de eficiência e eficácia profissional e de conhecimento científico. Este perfil não se adequa com alguém que menospreza ou desvaloriza a vida humana como um bem essencial.
NF | Neste dia do cuidador que mensagem é que quer deixar aos portugueses?
MJQ | Aproveito para dizer à população portuguesa que a vida é um bem único que deve ser preservado em qualquer idade, durante o tempo que for preciso e que tivermos para viver Aprofundar conhecimento nestas matérias implica também aprofundar o conhecimento relativamente às ciências da ética, do direito e do dever para o respeito da vida humana.

Quero também deixar claro que estas matérias são pluridisciplinares e interdisciplinares e cada vez mais deviam ser objeto de políticas intersectoriais e mais aprofundadas que fizessem relacionar a educação com todos os aspetos que referi anteriormente, para que a evolução da ciência seja acompanhada pelo conhecimento e dignificação dos seres humanos. Não saber o que fazer aos seres humanos não faz sentido.
Entrevista original em: http://www.newsfarma.pt/artigos/5924-dia-do-cuidador-%E2%80%9Cn%C3%A3o-saber-o-que-fazer-aos-seres-humanos-n%C3%A3o-faz-sentido%E2%80%9D.html

 

Fonte Texto e Imagem: News Farma

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