Dia Mundial do Cancro promove educação e ações contra o cancro

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  • Published: 2 fev 2022

O dia 4 de fevereiro é o dia dedicado a nível mundial à consciencialização para o cancro. Todos os anos, o Dia Mundial do Cancro promove educação e ações contra o cancro, com o objetivo de tornar a prevenção, o tratamento e os cuidados equitativos para todos.1

As complicações e comorbilidades relacionadas com o cancro têm um impacto altamente sig- nificativo nos doentes, afetando negativamente muitos aspetos da sua qualidade de vida, como o estado nutricional, a funcionalidade física e a saúde mental.2

Em particular, a dor continua a ser um sintoma prevalente em doentes oncológicos, com taxas de prevalência de cerca de 39,3% após tratamento curativo, 55% durante o tratamento oncológico e 66,4% nos casos de doença avançada, metastática ou terminal.3

A dor oncológica é um dos principais pontos de interesse da Angelini Pharma, cujo empenho não se limita apenas ao controlo deste sintoma, visando tambem a preservação do bem-estar dos doentes na sua vida quotidiana.

Nesta entrevista, Andrew Davies, Professor de Medicina Paliativa no Trinity College of Dublin e Presidente da Associação Multinacional de Cuidados de Suporte em Oncologia (Multinational Association of Supportive Care in Cancer, MASCC), responde a algumas questões acerca da dor oncológica, apresentando sugestões para a melhor compreender, gerir e comunicar.

A presença e gravidade da dor têm um impacto assinalável sobre a qualidade de vida, bem como sobre a evolução da doença. O fraco controlo da dor também está associado a maior sofrimento psicológico e redução das atividades sociais.4

 

Doutor Davies, a dor é um sintoma frequente em doentes oncológicos?

A dor é um sintoma frequente em doentes oncológicos e pode ocorrer em qualquer fase da doença. Muitas vezes está presente aquando do diagnóstico, em função do tipo de cancro. Em casos de cancro avançado, até 80% dos doentes podem experienciar dor. Embora seja frequente, a dor oncológica é, muitas vezes, controlável, pelo que os doentes não têm de sofrer com dor.

“A dor oncológica é, muitas vezes, bastante controlável, pelo que os doentes não têm de sofrer com dor.”

 

Quais são as consequências da dor para os doentes oncológicos e respetivos cuidadores?

A dor pode ter um enorme impacto na vida dos doentes. A dor não tratada, fracamente con- trolada, pode ter várias complicações. Em muitos casos, os doentes com dor apresentam prob- lemas de mobilidade. A dor pode interferir com o sono e pode afetar o humor das pessoas. Os doentes com dor podem ter necessidade de consultar o seu médico e de recorrer aos hospitais com maior frequência. Consequentemente, os respetivos cuidadores têm de fazer mais pelos doentes, e podem não conseguir trabalhar. É por este motivo que é importante controlar ade- quadamente a dor, pois todas estas complicações são, potencialmente, evitáveis.

 

Existe uma relação entre problemas psicológicos e dor em doentes oncológicos?

Existe uma associação entre dor e problemas psicológicos, em particular ansiedade e depressão. O problema é que os doentes que sofrem de depressão têm maior dificuldade em autocontrolar a sua dor, pelo que quase se verifica um círculo vicioso nessas situações. Um bom controlo da dor pode ajudar a prevenir o desenvolvimento de problemas psicológicos e de outras compli- cações. Além disso, em muitos casos utilizamos tratamentos similares para tratar a depressão e a dor. Por conseguinte, é importante monitorizar o estado psicológico das pessoas, bem como a dor que as afeta.

Felizmente, hoje existem várias formas de controlar a dor oncológica, dependendo do tipo de dor que o doente sente e das causas da mesma.

 

Quais são os diferentes tipos de dor que os doentes oncológicos podem ter?

Os doentes oncológicos podem ter uma variedade de diferentes tipos de dor. Podem ter dor causada pelo próprio cancro, dor devida ao tratamento e, claro, a dor que todas as pessoas têm. Por isso, é muito importante diferenciar os tipos de dor, pois o tratamento também é muito diferente. É importante que os doentes sejam devidamente avaliados, para determi- nar com exatidão o que causa a dor que sentem, para que lhes possam ser prescritos os tratamentos adequados, pois nem todos os tratamentos resultam para todas as dores.

“É importante que os doentes sejam devidamente avaliados, para determinar com exatidão o que causa a dor que sentem, para que lhes possam ser prescritos os tratamentos adequados.”

 

Quais são as opções para controlar a dor oncológica?

Coisas diferentes resultarão em diferentes tipos de dor e de doentes. Se a dor se deve a cancro, então, em muitos casos, tratar o cancro também pode melhorar a dor. No entanto, por vezes, embora o tratamento seja bastante eficaz, os doentes continuam a sentir dor. Nestas situações, existem muitas intervenções não farmacológicas que podem ser bastante úteis, tais como intervenções que empregam termoterapia com calor e frio ou a neuroestimulação elétrica trans- cutânea (Transcutaneous Electrical Nerve Stimulation, TENS) ou a acupunctura, e depois temos todo um leque de fármacos que poderão ser úteis. No caso de problemas ósseos, as inter- venções por terapeutas ocupacionais ou fisioterapeutas, ou as cirurgias ortopédicas, poderão ser benéficas. Algumas pessoas necessitarão de intervenções analgésicas, por anestesistas, como bloqueios de nervos ou infusões de anestésico local. Assim, é muito importante adequar todas as intervenções em função do doente e da sua dor.

Os doentes e cuidadores deverão desempenhar um papel ativo no controlo da dor oncológica.5

 

De que forma os doentes devem comunicar com o seu médico, para que obtenham ajuda no controlo da dor oncológica?

É importante que os doentes relatem a dor que sentem e eventuais alterações. É igualmente fun- damental que monitorizem até que ponto o analgésico é eficaz, e se desenvolvem ou não efeitos secundários. Todas estas informações ajudarão os médicos e enfermeiros a decidir se devem ou não prosseguir o tratamento em causa, aumentar a dose do fármaco ou alterar o mesmo. É im- portante que proporcionemos às pessoas o tratamento certo para a dor certa. Por isso, é crucial que os doentes e respetivos cuidadores colaborem com os médicos e enfermeiros, e que os informem em que medida o tratamento está a resultar.

 

Qual é o papel dos cuidadores no tratamento da dor?

Os cuidadores, em particular os cuidadores familiares, são muito importantes no controlo da dor do doente. É essencial que eles encorajem os doentes a tomar a medicação, mas também que relatem em que medida o tratamento é efi- caz, e se está ou não a causar efeitos secundários. Os cui- dadores também podem ajudar em intervenções não farma- cológicas, para que, quando os doentes têm episódios de dor irruptiva, os possam ajudar utilizando técnicas de distração, ajudando-os a relaxar, massajando o doente, se isso for útil. Também podem proporcionar apoio emocional e ajudar os doentes a comunicar com os respetivos médicos e enfermeiros.

“É importante, caso a dor não esteja controlada ou as intervenções causem efeitos secundários, que os doentes e respetivos cuidadores e informem os médicos/enfermeiros que os acompanham.”“É importante, caso a dor não esteja controlada ou as intervenções causem efeitos secundários, que os doentes e respetivos cuidadores e informem os médicos/enfermeiros que os acompanham.”

 

Em sua opinião, o que é necessário para melhorar a assistência a doentes com dor oncológica?

Dispomos de muitas formas de controlar a dor oncológica, mas continuam a existir problemas em termos do controlo da dor em muitos doentes. Penso que parte do problema reside no facto de não monitorizarmos continuamente a dor do doente, pelo que é importante, caso a dor não esteja controlada ou as intervenções causem efeitos secundári- os, que os doentes e respetivos cuidadores contactem os médicos/enfermeiros que cuidam deles e os informem. Enquanto profissionais de saúde, é necessário que eduquemos e tranquilizemos os doentes e respetivas famílias quanto à segurança destas intervenções, e também quanto à forma de as utilizar adequadamente. É igualmente crucial, caso a dor de um doente não esteja controlada e os médicos/enfermeiros que cuidam desse doente não encontrem uma solução para o problema, que o doente seja encaminhado para um especialista em dor ou um especialista em cuidados paliativos. Diria a todos os doentes o seguinte: há algo que pode fazer para melhorar a sua dor, ou até mesmo para se livrar dela.

“É igualmente crucial, caso a dor de um doente não esteja controlada e os médicos/enfermeiros que cuidam desse doente não encontrem uma solução para o problema, que o doente seja encaminhado para um especialista em dor ou um especialista em cuidados paliativos.”

“Diria a todos os doentes o seguinte: há algo que pode fazer para melhorar a sua dor, ou até mesmo para se livrar dela.”

 

Referências
1. https://www.worldcancerday.org/about-us Último acesso em novembro de 2021
2. Artigo. The impact of cancer-related comorbidities on patient treatment, treatment efficacy, survivorship, and quality of life.
3. Van den Beuken-van Everdingen MH, et al. Prevalence of pain in patients with cancer: a systematic review of the past 40 years.
Annals of oncology: official journal of the European Society for Medical Oncology. Sep; 2007 18(9): 1437– 1449.
4. Scarborough BM, Smith CB. Optimal pain management for patients with cancer in the modern era. CA Cancer J Clin. 2018 May; 68(3): 182-196.
5. Schumacher KL, et al. Putting cancer pain management regimens into practice at home. J Pain Symptom Manage. 2002 May; 23(5): 369-82.